A Arte do Tempo

A Arte do Tempo

Trecho de um Livro que surgirá em breve:

 

A Arte do Tempo

 

Sabe, a sua arte nunca vai acontecer enquanto você não se dedicar a ela. Enquanto não cultivá-la com carinho, com cuidado, com atenção.

A arte se nutre de tempo. De manuseio. De experiências.

Não é que a sua arte precise de mais técnica, de mais isso ou mais aquilo. Toda arte, por si só, já nasce pronta. Pronta para um propósito, só dela. Olhe por esse prisma e, talvez, você encontre um meio de se livrar das obrigações para com a sua arte. Porque a arte não precisa ser comercial. Não precisa ser vendável.

… Ela pode ser.

E pode não ser.

É uma questão de escolha. Do que você quer. Do que a sua arte quer.

Você pode muito bem querer que a sua arte sirva, apenas, para fins lúdicos. Como um passatempo. Como algo que ficará, para sempre, adornando as paredes da sua casa – e apenas da sua casa.

… E tudo bem.

Quem foi que disse que a arte, para ser arte, precisa ganhar o mundo?

Eu já não penso assim. Ainda assim, para que a sua arte floresça, a ponto de você enxergá-la como a sua arte, ela precisa de contato com você. Precisa “passar por você”, várias e várias vezes, até que se crie uma intimidade, uma cumplicidade entre vocês. Vocês se conhecem, então, melhor do que ninguém. Vocês se relacionam com tamanha profundidade que, em diversos momentos, parecem ser uma só. A mesma pessoa. A mesma arte.

Por isso, às vezes, vocês se confundem. Às vezes, aliás, as pessoas confundem vocês na rua. Acham que estão falando de uma, quando na verdade estão falando com a outra.

… E tudo bem.

Com o tempo também você há de enxergar os limiares entre você e a sua arte. Vocês, afinal, podem ser unos. E podem não ser. Não precisam ser.

Tudo isso, claro, se você tiver a coragem; a ousadia de se dedicar à sua arte. De se aproximar dela. De puxar constantemente papo com ela. De olhá-la nos olhos, sem deixar que o medo de não ser correspondido afugente, por muito tempo, o encontro de seus olhares.

Por mais despretensioso que possa ser a sua intenção de contato; de relacionamento com a arte, vocês precisam de tempo juntos. Tempo para se descobrirem. Para se investigarem, se desbravarem.

Vocês precisam daquele tempo de qualidade, sabe? O tempo que não se perde, mas que se empenha numa linha de texto, escolhendo as palavras que soam mais agradáveis juntas. Lapidando-as. Entendendo o que mostrar, o que não. O que ocultar, o que não. O que dizer com todas as letras, o que deixar nas entrelinhas.

Você precisa de tempo. De experiências. De referências.

Você precisa poder explorar um caminho só porque deu vontade. Só para ver onde vai dar. Você precisa poder constatar que aquele caminho não deu em lugar-algum. Você precisa poder encarar algo como errado; como não tão certo, sem o peso da cobrança. Da obrigação de ter que acertar. De ter que ser perfeito. 

Você precisa poder fazer só por fazer. Só para experimentar. Só para se descobrir, para se esculpir; esculpir caminhos dentro de você; caminhos de aproximação para com a sua arte. Você precisa poder cansar disso e daquilo; desistir dessa ideia, daquele jeito, e saber que está tudo bem. Porque está. E porque esse caminho que parece não ter dado em nada, abriu espaço dentro de você. Construiu referências. Deu tempo para que vocês se relacionassem, se conhecessem melhor, se expandissem.

Se, desde o início, você se força a ter que fazer dar certo, está criando um túnel estreito, escuro, sufocante, claustrofóbico. Você não está se permitindo o sabor de experimentar várias estradas, distintas, possíveis, alternantes.

Isso quer dizer, então, por exemplo, que você deveria experimentar vários tipos de arte, antes de focar em uma específica? Ou que, caso tenha escolhido escrever, deva testar vários tipos de formatos (romances, contos, crônicas; ou histórias de amor, de fantasia, ficção científica, terror) antes de concentrar seus esforços em um estilo único?

… Não; não quer dizer nada disso.

Insisto: você e a sua arte não precisam de nada. Mas vocês sempre podem mais. Basta que você –  e só você saberá dizê-lo – descubra para onde quer ir. Que criadora você quer ser. E que se permita sê-lo. Se permita tentar – tentar mesmo, porque você não tem a obrigação de conseguir nada.

Livre-se desse peso que outros colocaram aí. Esse peso de que você tem de fazer algo com a sua arte. Que ela tem de servir para algum fim que foge à sua alçada. Não, ela não tem que nada. Nada, absolutamente nada.

Você pode errar. Pode tentar. Pode desistir. Pode parar, pode esperar, pode trancafiar a sua arte aí dentro, até que ela comece a ficar roxa e meta o pé na porta, querendo respirar. Você pode tudo. Basta que entenda uma coisinha muito simples – e muito da complicada: o que você quer?

É essa a pergunta que a sua arte vive fazendo, ao seu lado. É essa a pergunta que ela sempre fará. Por isso a arte é tão terapêutica. Por isso ela é tão vívida. Por isso ela é um caminho tão rico para o conhecimento (o autoconhecimento e o conhecimento do mundo que existe, lá fora).

Porque a arte pode até trazer inúmeras respostas; mas ela sempre carrega, em si, pelo menos uma pergunta; essa pergunta: afinal de contas, o que você quer? 

E a grande beleza dessa história toda é que você pode querer tudo. E nada. E está igualmente bem. Porque, no final das contas, a única métrica possível é a sua própria. A única régua que pode medir o seu sucesso (ou não) é a sua própria. É o que você, enquanto entidade criadora, quer.

Porque, quando você faz arte; quando vive artisticamente, você já está exercendo seu potencial criador – e criativo. Só por se dedicar a isso. Só por sentar a bunda na cadeira e escrever. Só por dedilhar o seu violão. Só por cantar aquele refrão. Só por esculpir aquele braço, daquela deusa grega, romana, otomana…

Porque, quando você coloca uma palavra no papel, ela já está lá. Por mais que possa não estar de acordo com as normas pré-estabelecidas; por mais que ninguém venha a ler, você já criou algo. Você já está fazendo a magia acontecer.

… Você entende isso?

A sua música não precisa contagiar milhões para ser música. A sua voz não precisa ser perfeitamente afinada para que a sua música seja mais música. Não existe isso de mais música ou menos música. Existe o que você quer, repito, insisto, esperneio… Existe o que te agrada, o que faz sentido para você, o que soa bem aos seus ouvidos.

Se a sua arte é verdadeiramente livre, é evidente que ela sempre pode ser mais. Ela sempre pode querer mais. Pode ir mais para lá, mais para cá. Se aprofundar aqui, explorar mais esse viés, essa área, esse gênero, escolher seguir esse ou aquele parâmetro. Pode combinar coisas que parecem muito estranhas, muito lógicas, muito únicas. Ela pode, pode tudo, tudo de acordo com as suas intenções, pretensões. Pode, mas não precisa. E nunca precisará, por si só.

… Quem precisa é você. Precisa de tempo.

Tempo que não é, nem de perto, a mesma coisa que expectativas. Tempo que não é deadline, prazo de validade, data de casamento marcado. Tempo que é só tempo. Tempo livre para ir e vir. Para brincar. Para se divertir. Se curtir. Se empenhar.

E, de novo, quer dizer, então, que não se pode estabelecer prazos? Que estabelecer objetivos e metas é errado? Que você tem de trabalhar desapegada de quaisquer datas, quaisquer planos etc.?

Não. Não quer dizer nada disso, tampouco.

É só que tudo depende. Depende do quê?

… De você. Do que você quer (e que bom que você já repetiu comigo, mentalmente, essa frase).

Portanto, tudo o que estou tentando te dizer, provavelmente, é: pare de se cobrar. Comece a aproveitar o tempo que você tem com a sua arte. Não comece um relacionamento já esperando pelo casamento. Já projetando os filhos de olhos azuis que vocês terão, quando forem viver felizes para sempre juntos. Não traia a sua arte com uma arte que nem existe – não ainda. Não cobre que a sua arte seja alguém que você nem sabe se quer que ela seja, realmente.

Se dê tempo. Dê tempo para a sua arte. Dê tempo de vocês realmente se conhecerem. De construírem essa relação, tão única. Dê tempo dela chegar, de madrugada, sem hora marcada. Se permita viver esses encontros. Se permita viver cada um deles, enxergando o quão singulares e inestimáveis eles são. Crie a sua própria fortaleza ao lado da sua arte. Crie seu próprio espaço, seu próprio tempo. 

… Coloque um tijolinho de cada vez, nesse castelo mágico. 

Deixe que a sua arte se transforme, com o tempo. Deixe que ela te transforme. Se dê esse tempo. O tempo de experimentarem as tantas vidas que vocês têm para viverem juntos. Não force nada, porque aí você deixou de criar, e passou a tentar controlar o futuro, instaurar uma realidade, impor um desejo. Você passou a tentar dominar o tempo, não mais a vivê-lo (ao seu tempo). Você tornou sua arte sua escrava, não sua companheira (e com quem você prefere passar a eternidade? Com uma escrava cegamente obediente ou com uma companheira vívida e consciente?).

Não. Não se apresse. Não alimente um mar de expectativas, um campo árido de preocupações. Entenda o quão leve e ilimitado o tempo pode ser. Porque ele pode ser. O tempo pode tudo. O tempo pode até voltar atrás (ou o passado não existiria). O tempo pode pular partes ainda não vividas e alcançar o futuro.

O tempo… Ele é o tempo. É um deus, um criador. O tempo pode tudo.

… E, por isso mesmo, esse é o maior presente que você pode dar, para vocês duas.”

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